SUSANA ANÁGUA

Inauguração a 11 de Novembro a partir das 16:00 a 6 de Janeiro de 2018

                         
 


1. O título desta exposição de Susana advém de um verso de Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro modernista. Aqui, logo diante de seus olhos, antes mesmo de ler este texto, você viu o fora a e, agora, o dentro desta vitrine. Nela, há objetos industriais, ligados por fios. Fios que são vestígios quase extintos de antigos territórios habitados por homens que foram capazes de inventar objetos. Objetos hoje transformados em arcaísmos, vestígios. O poema de Drummond, “Os Últimos Dias “assim principia:

 

Que a terra há de comer,

Mas não coma já.

Ainda se mova,

para o ofício e a posse.

E veja alguns sítios

antigos, outros inéditos.

 

2. Como sugere o poeta, devemos mover nosso olhar para ver alguns sítios inéditos como, adiante, nesses decalques em papel de algodão feitos a partir de carbonos. Você sabe que, para além dos papéis, as estrelas, os planetas e nosso próprio corpo é feito deste carbono? Você, por exemplo, que me lê (esta condição, digamos, tão humana…) é composto de 97% do mesmo tipo de átomos de que são feitas as estrelas. Pois assim, mais brilhantes, podemos conduzir nosso corpo estelar para as esculturas em ferro, elementos minerais presentes nas antigas estruturas fabris, tão ao gosto da artista.

 

O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz

da vida ficou mais forte, e os naufrágios

não cortaram essa ligação subterrânea

entre homens e coisas

 

3. Aí adentramos numa sala escura, povoada de visualidades sonoras (sim, Naná Vasconcelos, o grande percussionista, disse que o compositor Villa-Lobos lhe ensinou que “a música pode ser visual”. Por que não?).  E aí está uma obra-força da exposição, quase do mesmo azul com que Gagarin, aquele que primeiro circundou o planeta, exclamou: “A terra é azul!”. A terra, as estrelas, os corpos, a mente da artista e a sua:  um só clarão.

 

Este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros,

nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente clarão.

 

4. A artista, além de carbono e poeira de estrelas, é feita de “ana”, sufixo que designa tudo que é muito fecundo, e feita também de “água”, componente de 60% do corpo. Susana Anágua é este ser vivo, lúcido, que caminha ao lado de sua sombra, nos legando, no cotidiano, sua memória: a de um corpo que vê. E reinventa.

 

E a matéria se veja acabar: adeus composição

que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.

Adeus, minha presença, meu olhar e minhas veias grossas,

meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,

sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso pessoal, idéia de justiça, 

revolta e sono, adeus,

adeus, vida aos outros legada.

 

Leonel Kaz é co-editor de UQ! Editions